sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Metro por segundo




Ele ganha asas e o céu embala espiral
Ele toma impulso e a imensidão avança
Ele rodopia e o vento o segue, e risca, e cola, e dança
E as nuvens roda, feito doces de algodão.

Ele cobre espaço, do deserto ao glacial
Ele ganha altura, e do céu se lança
Ele cai cem metros, mas logo se ergue, e grita, e rola, e cansa
E o ar envolve, feito bolha de sabão.

Ele esquece o tempo, e o que é real
Ele canta ao todo, e as nuvens trança
Ele perde a forma, e se torna tudo, homem, mulher e criança
E ao sol se joga, feito todo de paixão.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Poucas Palavras



Grito as palavras como fossem águas
E essas são somente o que queria proferir
São palavras raras de dizer ou de se ouvir
Que escorrem sem porém e sem razão.
... Dito sem mágoas.


Tal qual um sussurro que sucede as lágrimas
A resposta é breve, simples, mas não rala
Se é pergunta, é clara, curta, pobre em fala
Como fosse a aguardar o mais comum.
... Mas sem lástimas.


Guardo as palavras que lembram os gritos
Que remetem a algo melhor de se afogar
E profiro em águas as palavras que não têm poder de machucar
Fortes, elas puxam riso do seu coração
... Já não aflito.

domingo, 18 de julho de 2010

Nyasaye ogwedhi




Ouço sons sob o calor
Ouço vozes pelo Sol
Ouço gritos sobre a dor
Ouço o vento no arrebol.

Vejo gente pela terra
Vejo fome pelos passos
Vejo morte pela guerra
Vejo raiva pelos traços.

Sinto chamas nas areias
Sinto vida sobre as fontes
Sinto o sangue pelas veias
Sinto amor em suas frontes.

sábado, 3 de julho de 2010

Arte de dez anos.




Quando voltar os olhos à arte, é a arte do antes
Que desperta os olhos, que acorda o corpo
A arte que nunca se esquece, por mais que
Não seja como antes...
No mesmo pó de ontem, é arte que te volta ao dia
Uniforme num pacote arrebentado, e a arte do durante
Que carrega o peito, que desaba a alma
A arte que sempre aparece, que, prendida no passado
Nos carrega doravante...
É a mesma luz do tempo de dez anos, numa flauta apaixonante
Que ignora o tempo, que me abraça forte
A arte que sempre me aguarda, e carrega o violão
Arte tão distante...

domingo, 27 de junho de 2010

A Lua é a tua Imagem




A Lua te cobria quando aconteceu...
A tua face angelical em fogo contorcido
O teu sonho de menina com tua pele derreteu.
E no entanto, pouco importa, é verdade
Não parece, e além disso, quem palpita?
E que vida é a minha para comentar?
Eu enxergo com meus olhos quem te olha com maldade
E no entanto, eu não os compreendo.

Sim, é fato que um dia quem tu foste desapareceu
Que tua imagem, no retrato tão reconhecido
É lembrança de jornal ou pensamento em breu.
E ainda reafirmo, nada mais que vaidade
Pelo menos aos meus olhos tu ainda és bonita
Tão bonita como a velha noite de luar
Tão bonita como se ainda em flor da idade
Tua vida progredindo, tua alma florescendo.

Tu és fruto do momento em que a vida intercedeu
A fazer de tua imagem um luar enriquecido
Pois a Lua é a tua imagem, desde a noite em que nasceu
O teu rosto, resultado de tamanha claridade
Que, assim como tua alma se transforma e grita
Grita inspiração, e a força espetacular
De quem vive, e prossegue com vontade
Uma vida exemplar, cujas faces eu entendo.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Mortalha




Menina,o seu casaco preto
Num momento turvo, ofuscava o pequeno mundo que eu tinha nas mãos
Não havia sina, não havia medo
Não havia estrondo algum capaz de aliviar minha respiração
Sob as lentes os seus olhos se fechavam
E, por Deus, eu juro que não enxergava o menor sinal, nenhuma hesitação
Só havia o cheiro
Só havia o escuro, e no mais o belo sentimento de convicção...
Menina, o seu andar curvo
Suas mãos nos bolsos, seus cabelos longos, e o seu casaco na escuridão
Eu revivo a cena, eu enxergo o enredo
Eu ainda sinto um dos quatro Beatles sob minhas mãos...
Em seus olhos os meus olhos se focavam
E resposta alguma eu esperava, que não fosse o sinal da retribuição
De seu corpo inteiro
Só buscava a força que você gerava, de alguma forma como turbilhão...
Menina, seu casaco preto
Hoje em seu armário, pulsa em meus olhos com vermelhidão.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Impacto




A respiração aumenta, a turvidez toma o espaço
O seu coração lateja, seus dentes rangem pelo estardalhaço
A mente se perde e o sangue pulsa, causando espasmo
Não se pensa em nada, a mente entra em marasmo
Os olhos se abrem, os olhos se fecham,
O alvo se avista, os punhos se cerram
O instinto se toma, a razão se abandona
O corpo se ajusta o grito vem à tona
No momento em que o tempo pára e não se sente dor
Em que a raiva vara todo e qualquer tipo de amor.